Qualquer semelhança é mera realidade. Ou quase isso.
Lembro da primeira vez que você me olhou, de cima do palco. Eu estava na quinta fileira, com o olhar derretido. Fazia coraçãozinho com as mãos. Naquela época, isso não era mico. Tentava de alguma maneira chamar sua atenção. Deu certo! Quando o seu olhar encontrou o meu, quase não acreditei.
Teve também a nossa primeira foto juntos, você lembra? Eu estava de cabelo curto e vermelho, marcas típicas da rebeldia adolescente. Com o blusão do colégio. Te esperava na frente do prédio. Já você vestia uma camisa xadrez, quadriculada, em tons de vermelho e azul. Te abracei e pedi para alguém bater aquela que seria a nossa primeira fotografia juntos. A máquina, emprestada, ainda era analógica. Passei dias agoniantes esperando o filme ser revelado.
Não tem como esquecer do primeiro oi, o primeiro abraço, o primeiro riso e aquele choro de tristeza. Aquele aniversário, o encontro no aeroporto, a despedida. Naquela época era tudo muito definitivo, exacerbado. A felicidade e a tristeza pareciam para sempre: a inocência da juventude. A passagem da infância para a adolescência. A descoberta das novas sensações. A gente nunca se dá conta, né?
Inclusive, descobri o que era tesão com você, sabia?
Não lembro exatamente o mês. Outubro. Setembro, talvez. Eu desviei meu caminho e passei para te ver ensaiar. Era final de tarde, mas fazia calor. Você estava saindo e parou para falar comigo e com as outras pessoas que estavam por ali. Na primeira oportunidade, pedi uma foto e fui te abraçando pela cintura. Você me imitou no gesto.
Escorregou sua mão direita de uma ponta a outra, pela minhas costas. Eu senti um arrepio forte, um calor. Te olhei meio de lado, sem entender, com a maior cara de #aimeudeusdoceuoqueéisso. No instante em que o flash foi disparado. Você se despediu e seguiu seu caminho. Eu fiquei ali parada e de pernas bambas.
**
Depois daquele fatídico anúncio, decidi colocá-lo dentro de uma caixinha, na última prateleira do guarda-roupa, junto com todas as minhas fotos, revistas e posteres. Como a vida pedia, transferi os sonhos para a carreira, trabalho e faculdade. Você também parecia cansado daquela vida. Tanto é que sumiu dos palcos e do mundo dos holofotes.
Confesso, não foi tão difícil quanto eu achei que seria. Chorei no dia 11 e depois no dia 18. Me apaguei as fotos, revivi os videos e todos aqueles momentos. Me questionei o porquê daquela decisão várias vezes. E por muitas outras quis voltar atrás, quis que você voltasse atrás. Mas, depois passou. A menina, quase mulher, estava pronta para viver as novas possibilidades que se apresentavam. Corpo e mente foram em busca de sensações mais reais.
Mudei, mas jamais deixei de me apaixonar: a cor de um olho, um corte de cabelo, pela barba mal feita do menino do metrô, pelos dentes brancos e a voz leve daquele professor. Coisas da cabecinha leve de quem gosta de amar, de quem gosta do amor.
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Descobri, há uma semana que meu ex-namorado está noivo, voltou com a ex e está noivo. Talvez ele compre alianças caras e viaje para Paris. E, apesar de achar que ele está fazendo errado, não fiquei mal. Afinal, fui eu quem não aguentou e sucumbiu ao sufoco do amor.
Ontem descobri que você ficou noivo nos Estados Unidos. Vi fotos de vocês juntos e me pareceram tão felizes. As fotos são lindas. Ela também. Você eu nem comento. Sabe, parece que essa é mesmo a coisa certa a ser feita. Mas, meu coração apertou.
Tive, mais uma vez, que me despedir daquelas fantasias que estavam guardadas. Matar um pouco mais a menina que ainda teima em viver aqui dentro. Dei de cara com o mundo real, de novo. E compreendi, que talvez, eu seja feita para viver os amores impossíveis e que com os possíveis eu só me divirto, assim sem compromisso.
O telefone tocou. Eu demorei para chegar. Você estava com frio. Era de madrugada, mais manhã do que noite, é verdade. Seu olhar era firme, os braços estavam cruzados junto ao corpo. Eu, meio sem graça, sorria. Aquele riso de canto de canto de boca, de quem acabou de aprontar.
Durante o longo trajeto até a sua casa, o silêncio prevaleceu. Aquela velha sensação de 'ferrou' foi tomando conta de mim. Olhava pela janela do ônibus e, apesar de não reconhecer o lugar, me sentia em casa. Já estava acostumada com a paisagem, com os carros loucos e com o som do 's' puxado. Na verdade, sempre me senti em casa perto de você.
Incomoda era a sensação de não saber o que esperar ou de como começar. O que dizer ou como explicar. Ainda calada, de vez em sempre te fitava. Numa tentativa inútil de decifrar seus pensamentos. Será que o cansaço do corpo, que pedia descanso, me livraria daquela situação? Com o caminho cada vez mais curto, talvez o silêncio fosse mesmo a melhor solução: poderíamos apenas chegar e dormir.
Ou não.
Obviamente, não consegui escapar do seu interrogatório e daquele seu olhar de 'por que você faz essas coisas?' que me deixa desconcertada, sem saber o que responder. Mas, para a minha surpresa, foi tudo calmo, tranquilo, sereno, com ares de experiências adquiridas, que me deixou surpresa. Não na hora, mas depois.
Depois de arrumarmos as camas, deitamos e você pediu com jeitinho: "O que aconteceu? Me conta!". Eu sorri um riso tímido e me achei boba por achar que escaparia daquela pergunta. Entre dentes e meio baixo, evitando seu olhar, respondi sem dar detalhes. Você sorriu de volta e foi perguntando ponto a ponto. Enquanto eu falava, você balançava a cabeça negativamente. "Ei, não me olha assim!", pedi.
Não notei na hora, mas você estava me sacaneando. De leve, mas estava. Tanto é que perguntou se eu estava satisfeita com o resultado, com outras palavras, é claro! Eu esperava uma bronca que não veio, uma reação mais enérgica e a constatação de que eu estava fazendo tudo errado. Afinal, instinto protetor é o seu segundo nome.
Quando o assunto terminou, ganhei cafuné e um beijo de boa noite. Adormeci feliz e assim que acordei me dei conta de que você não era você. Quer dizer, era mas não era. Entendi, ainda deitada, te olhando dormir de que eu estava conhecendo sua versão atualizada. Adulta e consciente de que coisas assim acontecem, mesmo não sendo o ideal.
Um pequeno relato do que eu vi, vivi e ouvi na manifestação contra o
aumento da tarifa do transporte público em São Paulo. O dia foi histórico.
Foto: Gabriela Abrunheiro
Quinta - feira, 13 de junho. O clima já era de
tensão horas antes. Ainda no trabalho, pelas redes sociais e pelo celular, os
amigos mandavam mensagens e me pediam cuidado. Segundo eles, a PM já estava
ocupando o centro da cidade e estava autorizada, pelo prefeito, governador e
pela mídia a bater, ainda mais, nos que estivessem na rua. Um colega, veterano,
foi preso antes mesmo de chegar à manifestação. Na sua mochila, uma blusa, uma
câmera e uma garrafa de água. Outros, apenas por portar vinagre ou estar
comprando um cigarro.
Quinta - feira, 13 de junho. Já estava na
portaria do prédio onde trabalho. Minha chefe, sentada, fumava. Informei que
estava saindo um pouco mais cedo, que iria à manifestação. "Você vai estar
nos livros de história dos meus netos? Então, ok". Dois passos à frente,
meu celular toca. Minha mãe me pedia para ir pra casa, passar longe do
protesto. Argumentei que precisava estar lá e prometi mandar notícias.
Quinta - feira, 13 de junho. Encontrei com dois
amigos da faculdade (de jornalismo, Cásper Líbero) na catraca do metrô
República às 18h30. Ali, os seguranças da estação, de capacete e coletes a
prova de balas, já faziam um cordão e olhavam com cara feia para aqueles que
pareciam suspeitos. Dois jovens
adentravam a estação e já gritavam: “Mãos para o alto, três e vinte é um
assalto”.
Foto: Gabriela Abrunheiro
Quinta – feira, 13 de junho. Entramos no meio da multidão. Era tanta gente que não conseguíamos
identificar onde começava e/ou terminava. Bandeiras, faixas, cartazes. As caras
estavam pintadas, os narizes, vermelhos. Alguns rostos cobertos por blusas,
lenços e máscaras. O clima era bom, as pessoas pareciam felizes. A bateria
ditava o ritmo. E tinha gente de todo o tipo, como é comum a São Paulo. Jovens,
velhos, trabalhadores, estudantes, partidaristas, skatistas e todas as outras
tribos que aqui vivem e sobrevivem. O
grito “CPTM, vê se me escuta, a sua luta é a nossa luta” – apoiava a greve dos
ferroviários, que acontecia naquele mesmo dia.
Quinta – feira, 13 de junho. Estávamos
na Augusta, rua que liga o bairro dos Jardins ao baixo centro, símbolo da
pluralidade existente na cidade. Éramos um grupo de umas 400, 500 pessoas. Pode
ser que mais, não sou muito boa com números. A ideia era subir até a Av.
Paulista só que estávamos parados, literalmente no meio da rua. Na janela de um
prédio do lado esquerdo, um moço segurava uma criança, loira, de cabelos
médios, encaracolados. Não sei se menino ou menina, mas deveria ter uns quatro
anos. Nós acenávamos de baixo, a criança respondia de cima. “Vem, vem pra rua, vem contra o aumento”, a
massa começou a cantar. A criança fez uma cara de susto. Boquiaberta, com o
punho cerrado no alto, olhava atônita para a multidão. O moço que a segurava
sorria. E não era pouco. Ele sorria muito. Uma lágrima escorreu no meu rosto. Essa
nada tinha a ver com gás lacrimogêneo. A cena durou três segundos. O suficiente
para ficar eternizada na minha memória.
Quinta – feira, 13 junho. Do outro lado, lado
direito, um casal, na sacada do prédio, gritava com algumas pessoas na calçada:
“Segura. Calma, calma. Eles estão lá em cima”. Os dois se referiam a Tropa de
Choque, que fazia um bloqueio e não deixavam ninguém passar. Ao mesmo tempo, um outro grupo berrava no mega-fone:
“PSTU não sobe. Atenção! PSTU não sobe ninguém”.
Nesse momento, o clima já era mais tenso. Ninguém mais gritava, ninguém
mais sorria. Meus amigos e eu, não demos atenção. Tentamos ser valentes, dar a
cara à tapa. Recuamos na primeira bomba. Viramos numa rua lateral, acredito eu,
na Maria Antônia de Queirós.
Quinta - feira, 13 de junho. Maria Antônia, Bela Cintra. Consolação.
Acredito que foi esse o trajeto. Paramos entre a Rua Fernando de Albuquerque e
a Maceió. Alguns carros já estavam
atravessados na pista. Havia cavalaria na parte de cima e na parte de baixo. Emboscada!
Estávamos, então, cercados. Pediram para abaixar, sentar no chão: “Senta!
Senta”. Será que é uma boa idéia? Pensei
comigo. Mas, sentei. Todos ao meu redor sentaram também. BUM! Bombas e tiros! Levantamos. Começaram a
correr. A única fuga possível era
entrando pela rua Maceió, aquela do restaurante Sujinho. Não dava para saber de
onde as bombas vinham, mais de uma vez, fiquei com a impressão de estarem sendo
jogadas de cima. Agora, caíam do nosso lado, uma atrás da outra. Uma cortina
branca se fez. As pessoas, esmagadas entre a mira dos revolveres e da parede,
não sabiam se iam ou se ficavam. Nesse
momento, eu estava perto da calçada, já não conseguia respirar ou enxergar.
Tudo o que existia em mim queimava. Fiquei com medo. Paralisei. Não conseguia
correr, só pensava: as pessoas vão me derrubar, eu vou ser pisoteada. Um amigo
então me agarrou pelo braço, empurra daqui, puxa dali. “Corre!” – foi a ordem
que ouvi. Ouvi e obedeci. Com os olhos lacrimejando, meio aberto, meio fechado,
vi pessoas vomitando ao meu lado.
“Vinagre, vinagre”, implorei assim que sai do sufoco. Apareceram dois meninos, molharam minha máscara
e meu rosto. Enfim, respirei. Tinha sobrevivido.
Google Maps do trajeto feito.
Quinta-feira, 13 de junho. Os amigos seguiam mandando mensagens pelo
celular. Whatsapp e Facebook. Estavam
preocupados, queriam notícia. E ao mesmo tempo, mandavam coordenadas. “Clinicas
tem 10 camburões”, “Paulista fortemente armada”, “Choque na Bela Cintra”. Entramos na Angélica e lá seguimos por
dentro. A sensação era de estar sendo
caçada, brincávamos de o gato caça o rato. Eles, os militares eram o Tom; nós,
os militantes, o Jerry. Só que não era
desenho animado, era a vida real. Era uma guerra. Guerra. Não era a primeira
vez que aquela palavra vinha à mente. Tentava mandar noticias aos que estavam
em casa: “Tá foda. Mas, estou bem! Tô viva”, escrevi para duas amigas. Seguíamos pelas ruas residenciais. As pessoas
nos quintais e nos portões dos prédios olhavam, acenavam e filmavam. De certa
forma, dava-nos força para continuar. O grito voltou a ecoar: “OooOooo o povo
acordou”.
Quinta - feira, 13 de junho. As bombas não
cessavam. Os tiros também não. Agora estávamos numa praça. Talvez a Clemente
Ferreira, talvez a Marechal Cordeiro de Farias. Não sei bem. A única coisa que sei é que vi a tropa de
choque a 250 metros de mim e que, de novo, voltei a sentir medo. Com a mochila
na mão, corri e corri muito. Já não havia mais manifestação ou passeata. O que
restava eram pessoas desesperadas, correndo sem olhar para trás, tentando se
defender de algum modo. A intenção
primária era ficar em pé. No caminho
encontrei com uma mulher, ela estava no celular e chorava muito. “Eu só queria
ir pra casa. Eu só queria ir pra casa”. Fiquei na dúvida: parar para ajudar ou
não. Decidi que não tinha muito o que fazer. Ela foi para um lado, eu para o
outro. Espero que tenha conseguido chegar em casa com segurança.
Quinta - feira, 13 de junho. Sem conseguir chegar
a Paulista e com a polícia se aproximando, a Dr. Arnaldo, cheia de carros e
ônibus, parecia ser a solução mais segura. Por mais loucos e assassinos que
aqueles policiais pudessem parecer, ninguém acreditava que eles jogariam bombas
nas pessoas que, nada tinha a ver com o evento. Elas, assim como nós, estavam
tentando exercer o direito legitimo de ir e vir. E também, assim como nós,
foram acertadas com bombas de gás lacrimogêneo e de pimenta. Pois é, estávamos
enganados, bombas caíram ali também. Era possível ver motoristas e cobradores
tentando respirar sem conseguir. Alguns manifestantes ajudavam e doavam
vinagre. “Isso aqui está impossível”, ouvi alguém dizer.
Quinta – feira, 13 de junho. O boato era de que
as estações do metrô estavam fechadas. Eram cerca de 60 pessoas perdidas, sem
saber o que fazer. Ir ou ficar? Eis a questão. Um minuto e meio de indecisão. BUM!
Mais tiros e mais bombas. Todos
correram, descendo a Major Natanael. Lá embaixo o Pacaembu. Tentei lembrar as
outras vezes que desci aquela rua, indo aos jogos do Corinthians. Idiotice. Uma
bomba caiu e a menina que estava ao meu lado também. Não sei se de susto, não
sei se acertada. Atravessei a avenida. Olhei para trás e vi que estava na mira
dos policiais. Do meu lado, um cara foi acertado com um tiro de borracha na
cabeça. Cogitei parar e ajudar e no mesmo minuto meu amigo, lendo a minha
mente, gritou: “Corre! Corre!”. Obedeci. Mais a frente, um outro amigo indicava
o caminho, uma rua paralela, a qual nunca tinha percebido a existência: “Por
aqui! Por aqui!”. Saímos da rota dos policiais. Ufa! Eu estava viva. De novo, mais
uma vez. O barulho dos tiros persistia, salve-se quem puder.
Foto: Gabriela Abrunheiro
Quinta - feira, 13 de junho. “Rafa, das outras
vezes também foi assim?”. “Não, hoje eles não esperaram nem começar. Queriam
mesmo pegar”. Novamente a palavra guerra veio na cabeça.
Seguíamos pelas ruas
do bairro de Higienópolis. No caminho, barricadas. Naquelas ruas alternativas,
lixo tinha sido queimado. Alguns ainda terminavam de pegar fogo. Será mesmo que foram os manifestantes que
fizeram aquilo? A ideia não era passar por ali. O grupo já estava totalmente
disperso. Meu corpo já não aguentava mais. Minha mente também não. Caminhávamos
em silêncio, as seis pessoas. Ainda assim, eu conseguia ouvir o Choque, os
tiros, as bombas.
Quinta-feira, 13 de junho. “Alô, mãe? Eu tô
bem! Tô legal. Estou tentando voltar pra casa. Procurando algum metrô aberto. É
verdade, eu tô bem. Estou com os amigos. Mãe, eu sou jornalista, tenho que
estar aqui. Não seria eu se não estivesse”. Tentava tranquilizar a minha mãe,
que argumentava que eu era jornalista esportiva e que aquilo ali não era
esporte. Terminei a ligação com um sorriso no rosto. A sensação era de estar no
lugar certo, fazendo a coisa certa. A cidade estava pulsando, correndo,
gritando, lutando e eu estava lá.
Quinta-feira, 13 de junho. As notícias chegavam
aos poucos. Colegas de imprensa presos, feridos. Amigos de faculdade e transeuntes
machucados. Policiais que queimaram colchões e quebraram o vidro do carro para colocar a culpa nos manifestantes. E eu já não sabia o que sentir. Um misto de
orgulho, nojo. Felicidade e tristeza. O nó na garganta persistia. Vivi o que os
livros de história me contaram: a luta por um mesmo ideal, o grito de cansaço
de um povo, o despreparo e a repressão de uma policia fascista, que de nada
protege. “Ei, você aí fardado, também é explorado”.
Quinta-feira, 13 de junho. Não saí ferida.
Fisicamente ferida. A não ser pela unha do dedão do pé que está roxa, pisada,
se preparando para cair. E quando cair não vai restar nada. Comparado aos
outros, aos companheiros de batalha, nada. Moralmente é diferente. As marcas
vão ficar para sempre. Ouvi gritos, choros, bombas e tiros. Gritos. Bombas. Mesmo
com medo, me senti mais humana. Mesmo,
sem enxergar e respirar, me senti mais viva. Depois de tanto gás, as lágrimas
secaram, parece. Estão presas. Repasso
em looping todas as cenas. Ainda não
consigo compreender. Meus ombros tensos. “A alma guarda o que a mente tenta
esquecer”, já diria Mano Brown.
Quinta-feira, 13 de junho. Dia de fazer História. Dia de ser História. De mudar a História. Lápis e papel. Máscara e
vinagre. Dia de ir pra rua. “Às ruas!”. De vencer o medo e soltar o grito. De mostrar
que não é por vinte centavos – e mesmo se fosse. Saímos do computador,
levantamos do sofá. Cansamos! E estamos vivos. Uma cidade muda não muda. Não nos
calarão. Amanhã vai ser maior. “Vem, vamos embora que esperar não é saber, quem sabe faz a hora, não espera
acontecer!”.
Foto: Cartaz na Avenida Paulista
Quinta-feira, 13 de junho. São Paulo não parou.
Acordou!
Há dias em que nada é o bastante. Tudo dá errado e mesmo com o sol batendo na janela, a paisagem é cinza. A alma, fria, cansada e pesada.
Há dias em que tudo é confuso. As nuvens encobrem o sol e você não sabe de nada. Se prefere o branco, o preto ou o vermelho. Não consegue escolher entre morango ou chocolate. Um oi irrita, assim como o barulho da TV. No rádio aquela música insiste em tocar.
Há dias em que a vontade é desistir, jogar tudo para o alto e fazer como manda a canção: tentar outra vez. Diferentes caminhos, novas estradas. Talvez menos tortuosos, esburacados e escuros.
Há dias de surpresas. Um sorriso, uma palavra, um cafuné. De repente um chacoalhão, um grito, um xingamento. De repente um dois, três copos. Uma, duas ou três cervejas. A cada shot um conselho. Tequila.
Há dias de surpresas. Algumas palavras, meios silêncios. Outras músicas. Novos pontos de vistas. Um café. Uma noite aqui, outra ali. Os mesmo assuntos, as mesmas dores. Faz-se segredos, confidências.
Estou cansada, paralisada, sem saber o que fazer. Na verdade, eu sei o que deve ser feito. O problema é que não consigo colocar em prática. Queria mudar, pelo menos um pouco, e conseguir tirar da minha vida tudo aquilo que não me faz bem. Fazer aquela faxina no armário: tirar o que não serve mais, o que está pequeno demais ou aquela peça cheia de furos ou que não se adéqua mais a vida que você leva, sabe? Mas, é difícil, não consigo desapegar assim. Olho, e relembro os momentos, fico com saudade e guardo de novo. Por vezes acabo conseguindo dar uma outra utilidade àquilo, mas a questão é que nada é como antes. E isso já deveria estar fora da prateleira há algum tempo.
O que me incomoda não é o não mais usar, afinal, a peça nem era mais utilizada. A questão é saber que, se por acaso eu tiver vontade de colocar e relembrar certos momentos, não vou poder. Ela já não estará mais ali e corro o risco de encontra-la em outra pessoa. É isso que me deixa paralisada, em frente ao guarda-roupa da vida, tirando e colocando peças das prateleiras, cabides, gavetas.
Mas, não pode ser assim, preciso tomar decisões. Preciso começar e terminar logo essa faxina. Distribuir melhor os espaços, para que novas roupas possam chegar.
E ao contrário de tudo o que eu queria, precisava, pensava, buscava. Eis o primeiro post de 2012. Uma música daquelas que narram a vida, os pequenos hiatos, os fatos, os risos e os medos.
Então tá combinado, é quase nada É tudo somente sexo e amizade. Não tem nenhum engano nem mistério. É tudo só brincadeira e verdade.