"Jornal é prestígio. Televisão é popularidade. Rádio é prazer. Por que ele vai com a gente ao banheiro, à escola, ao ônibus, pra cama, pra cima, pra baixo. O rádio fala. Mas também ouve." - Por Mauro Beting, aqui.
Quando entrei na faculdade de jornalismo não sabia muito bem o que queria. Aliás, queria escrever, afinal. Mas sem qualquer pretensão. Não sabia para quem, por quem ou sobre o quê. Tão pouco tinha uma empresa favorita para destinar meus esforços. Falando a verdade, estar na faculdade já era a realização de um sonho, já era uma vitória. Não tinha pensado no depois. Aos poucos as coisas começaram a ficar mais claras. Para me encontrar e saber como seguir voltei ao passado, à essência. Lembro de, com sete anos de idade, jogar três dentro, três fora, com os meninos da rua. Para desespero da minha mãe. Ali, sem saber, já lutava contra diversos pré-conceitos. E tinha uma tática: era a dona da bola. Assim, se eu não jogasse ninguém jogaria também. Sábado era uma festa. Os domingos, porém, eram sagrados. Sentava no sofá para acompanhar os jogos do meu time. Os olhos vidrados na tela. O mais legal de tudo era a torcida: “Pai, quando é que você vai me levar no estádio?”, perguntava ao meu velho. “Um dia, filha. Um dia!”, ele esquivava. E nem mesmo quando o jogo não era televisionado, eu deixava de acompanhar o campeonato. Corria para a garagem, me trancava no Uno Mille 1.0 cinza, ligava o rádio e caçava uma estação que estivesse transmitindo a partida. Na hora do gol, enchia o pulmão de ar e acompanhava o narrador: “goooooooool é do Corinthians”. No segundo ano de curso já tinha definido sobre o que queria falar e de repente tudo parecia muito óbvio. De primeira, o mundo do jornalismo esportivo parecia ideal e muito divertido. Foi quando fui apresentada à Filomena Salemme e sua paixão pelo rádio. Ensinava a partir das suas experiências, respirava rádio. Levou os alunos até ele e trouxe a rádio até a gente. Me inspirou. Por coincidência, a essa altura, estava estagiando numa Web Rádio. Sem qualquer salário, apenas com muita fome de bola. Por fim, apaixonei-me de vez. Todo dia era domingo, de sol, de Pacaembu. Aprendi muito. E nessa caminhada encontrei outras pessoas responsáveis por manter o fogo dessa paixão acesa. Quase que me fazendo esquecer que um dia estive perdida. Pois, para a minha surpresa, pouco tempo estava de fato empregada, com salário e vale refeição, coordenando, colocando no ar - e por vezes comentando - quatro transmissões simultâneas. Era um misto de tudo: eu, futebol, internet e rádio. Realizei sonhos que nem sabia que existiam. Me encontrei. Hoje, trabalho com televisão, tenho a vontade de trabalhar com texto. Mas, como disse Mauro Beting rádio é prazer, diversão e paixão.
Um pequeno relato do que eu vi, vivi e ouvi na manifestação contra o
aumento da tarifa do transporte público em São Paulo. O dia foi histórico.
Foto: Gabriela Abrunheiro
Quinta - feira, 13 de junho. O clima já era de
tensão horas antes. Ainda no trabalho, pelas redes sociais e pelo celular, os
amigos mandavam mensagens e me pediam cuidado. Segundo eles, a PM já estava
ocupando o centro da cidade e estava autorizada, pelo prefeito, governador e
pela mídia a bater, ainda mais, nos que estivessem na rua. Um colega, veterano,
foi preso antes mesmo de chegar à manifestação. Na sua mochila, uma blusa, uma
câmera e uma garrafa de água. Outros, apenas por portar vinagre ou estar
comprando um cigarro.
Quinta - feira, 13 de junho. Já estava na
portaria do prédio onde trabalho. Minha chefe, sentada, fumava. Informei que
estava saindo um pouco mais cedo, que iria à manifestação. "Você vai estar
nos livros de história dos meus netos? Então, ok". Dois passos à frente,
meu celular toca. Minha mãe me pedia para ir pra casa, passar longe do
protesto. Argumentei que precisava estar lá e prometi mandar notícias.
Quinta - feira, 13 de junho. Encontrei com dois
amigos da faculdade (de jornalismo, Cásper Líbero) na catraca do metrô
República às 18h30. Ali, os seguranças da estação, de capacete e coletes a
prova de balas, já faziam um cordão e olhavam com cara feia para aqueles que
pareciam suspeitos. Dois jovens
adentravam a estação e já gritavam: “Mãos para o alto, três e vinte é um
assalto”.
Foto: Gabriela Abrunheiro
Quinta – feira, 13 de junho. Entramos no meio da multidão. Era tanta gente que não conseguíamos
identificar onde começava e/ou terminava. Bandeiras, faixas, cartazes. As caras
estavam pintadas, os narizes, vermelhos. Alguns rostos cobertos por blusas,
lenços e máscaras. O clima era bom, as pessoas pareciam felizes. A bateria
ditava o ritmo. E tinha gente de todo o tipo, como é comum a São Paulo. Jovens,
velhos, trabalhadores, estudantes, partidaristas, skatistas e todas as outras
tribos que aqui vivem e sobrevivem. O
grito “CPTM, vê se me escuta, a sua luta é a nossa luta” – apoiava a greve dos
ferroviários, que acontecia naquele mesmo dia.
Quinta – feira, 13 de junho. Estávamos
na Augusta, rua que liga o bairro dos Jardins ao baixo centro, símbolo da
pluralidade existente na cidade. Éramos um grupo de umas 400, 500 pessoas. Pode
ser que mais, não sou muito boa com números. A ideia era subir até a Av.
Paulista só que estávamos parados, literalmente no meio da rua. Na janela de um
prédio do lado esquerdo, um moço segurava uma criança, loira, de cabelos
médios, encaracolados. Não sei se menino ou menina, mas deveria ter uns quatro
anos. Nós acenávamos de baixo, a criança respondia de cima. “Vem, vem pra rua, vem contra o aumento”, a
massa começou a cantar. A criança fez uma cara de susto. Boquiaberta, com o
punho cerrado no alto, olhava atônita para a multidão. O moço que a segurava
sorria. E não era pouco. Ele sorria muito. Uma lágrima escorreu no meu rosto. Essa
nada tinha a ver com gás lacrimogêneo. A cena durou três segundos. O suficiente
para ficar eternizada na minha memória.
Quinta – feira, 13 junho. Do outro lado, lado
direito, um casal, na sacada do prédio, gritava com algumas pessoas na calçada:
“Segura. Calma, calma. Eles estão lá em cima”. Os dois se referiam a Tropa de
Choque, que fazia um bloqueio e não deixavam ninguém passar. Ao mesmo tempo, um outro grupo berrava no mega-fone:
“PSTU não sobe. Atenção! PSTU não sobe ninguém”.
Nesse momento, o clima já era mais tenso. Ninguém mais gritava, ninguém
mais sorria. Meus amigos e eu, não demos atenção. Tentamos ser valentes, dar a
cara à tapa. Recuamos na primeira bomba. Viramos numa rua lateral, acredito eu,
na Maria Antônia de Queirós.
Quinta - feira, 13 de junho. Maria Antônia, Bela Cintra. Consolação.
Acredito que foi esse o trajeto. Paramos entre a Rua Fernando de Albuquerque e
a Maceió. Alguns carros já estavam
atravessados na pista. Havia cavalaria na parte de cima e na parte de baixo. Emboscada!
Estávamos, então, cercados. Pediram para abaixar, sentar no chão: “Senta!
Senta”. Será que é uma boa idéia? Pensei
comigo. Mas, sentei. Todos ao meu redor sentaram também. BUM! Bombas e tiros! Levantamos. Começaram a
correr. A única fuga possível era
entrando pela rua Maceió, aquela do restaurante Sujinho. Não dava para saber de
onde as bombas vinham, mais de uma vez, fiquei com a impressão de estarem sendo
jogadas de cima. Agora, caíam do nosso lado, uma atrás da outra. Uma cortina
branca se fez. As pessoas, esmagadas entre a mira dos revolveres e da parede,
não sabiam se iam ou se ficavam. Nesse
momento, eu estava perto da calçada, já não conseguia respirar ou enxergar.
Tudo o que existia em mim queimava. Fiquei com medo. Paralisei. Não conseguia
correr, só pensava: as pessoas vão me derrubar, eu vou ser pisoteada. Um amigo
então me agarrou pelo braço, empurra daqui, puxa dali. “Corre!” – foi a ordem
que ouvi. Ouvi e obedeci. Com os olhos lacrimejando, meio aberto, meio fechado,
vi pessoas vomitando ao meu lado.
“Vinagre, vinagre”, implorei assim que sai do sufoco. Apareceram dois meninos, molharam minha máscara
e meu rosto. Enfim, respirei. Tinha sobrevivido.
Google Maps do trajeto feito.
Quinta-feira, 13 de junho. Os amigos seguiam mandando mensagens pelo
celular. Whatsapp e Facebook. Estavam
preocupados, queriam notícia. E ao mesmo tempo, mandavam coordenadas. “Clinicas
tem 10 camburões”, “Paulista fortemente armada”, “Choque na Bela Cintra”. Entramos na Angélica e lá seguimos por
dentro. A sensação era de estar sendo
caçada, brincávamos de o gato caça o rato. Eles, os militares eram o Tom; nós,
os militantes, o Jerry. Só que não era
desenho animado, era a vida real. Era uma guerra. Guerra. Não era a primeira
vez que aquela palavra vinha à mente. Tentava mandar noticias aos que estavam
em casa: “Tá foda. Mas, estou bem! Tô viva”, escrevi para duas amigas. Seguíamos pelas ruas residenciais. As pessoas
nos quintais e nos portões dos prédios olhavam, acenavam e filmavam. De certa
forma, dava-nos força para continuar. O grito voltou a ecoar: “OooOooo o povo
acordou”.
Quinta - feira, 13 de junho. As bombas não
cessavam. Os tiros também não. Agora estávamos numa praça. Talvez a Clemente
Ferreira, talvez a Marechal Cordeiro de Farias. Não sei bem. A única coisa que sei é que vi a tropa de
choque a 250 metros de mim e que, de novo, voltei a sentir medo. Com a mochila
na mão, corri e corri muito. Já não havia mais manifestação ou passeata. O que
restava eram pessoas desesperadas, correndo sem olhar para trás, tentando se
defender de algum modo. A intenção
primária era ficar em pé. No caminho
encontrei com uma mulher, ela estava no celular e chorava muito. “Eu só queria
ir pra casa. Eu só queria ir pra casa”. Fiquei na dúvida: parar para ajudar ou
não. Decidi que não tinha muito o que fazer. Ela foi para um lado, eu para o
outro. Espero que tenha conseguido chegar em casa com segurança.
Quinta - feira, 13 de junho. Sem conseguir chegar
a Paulista e com a polícia se aproximando, a Dr. Arnaldo, cheia de carros e
ônibus, parecia ser a solução mais segura. Por mais loucos e assassinos que
aqueles policiais pudessem parecer, ninguém acreditava que eles jogariam bombas
nas pessoas que, nada tinha a ver com o evento. Elas, assim como nós, estavam
tentando exercer o direito legitimo de ir e vir. E também, assim como nós,
foram acertadas com bombas de gás lacrimogêneo e de pimenta. Pois é, estávamos
enganados, bombas caíram ali também. Era possível ver motoristas e cobradores
tentando respirar sem conseguir. Alguns manifestantes ajudavam e doavam
vinagre. “Isso aqui está impossível”, ouvi alguém dizer.
Quinta – feira, 13 de junho. O boato era de que
as estações do metrô estavam fechadas. Eram cerca de 60 pessoas perdidas, sem
saber o que fazer. Ir ou ficar? Eis a questão. Um minuto e meio de indecisão. BUM!
Mais tiros e mais bombas. Todos
correram, descendo a Major Natanael. Lá embaixo o Pacaembu. Tentei lembrar as
outras vezes que desci aquela rua, indo aos jogos do Corinthians. Idiotice. Uma
bomba caiu e a menina que estava ao meu lado também. Não sei se de susto, não
sei se acertada. Atravessei a avenida. Olhei para trás e vi que estava na mira
dos policiais. Do meu lado, um cara foi acertado com um tiro de borracha na
cabeça. Cogitei parar e ajudar e no mesmo minuto meu amigo, lendo a minha
mente, gritou: “Corre! Corre!”. Obedeci. Mais a frente, um outro amigo indicava
o caminho, uma rua paralela, a qual nunca tinha percebido a existência: “Por
aqui! Por aqui!”. Saímos da rota dos policiais. Ufa! Eu estava viva. De novo, mais
uma vez. O barulho dos tiros persistia, salve-se quem puder.
Foto: Gabriela Abrunheiro
Quinta - feira, 13 de junho. “Rafa, das outras
vezes também foi assim?”. “Não, hoje eles não esperaram nem começar. Queriam
mesmo pegar”. Novamente a palavra guerra veio na cabeça.
Seguíamos pelas ruas
do bairro de Higienópolis. No caminho, barricadas. Naquelas ruas alternativas,
lixo tinha sido queimado. Alguns ainda terminavam de pegar fogo. Será mesmo que foram os manifestantes que
fizeram aquilo? A ideia não era passar por ali. O grupo já estava totalmente
disperso. Meu corpo já não aguentava mais. Minha mente também não. Caminhávamos
em silêncio, as seis pessoas. Ainda assim, eu conseguia ouvir o Choque, os
tiros, as bombas.
Quinta-feira, 13 de junho. “Alô, mãe? Eu tô
bem! Tô legal. Estou tentando voltar pra casa. Procurando algum metrô aberto. É
verdade, eu tô bem. Estou com os amigos. Mãe, eu sou jornalista, tenho que
estar aqui. Não seria eu se não estivesse”. Tentava tranquilizar a minha mãe,
que argumentava que eu era jornalista esportiva e que aquilo ali não era
esporte. Terminei a ligação com um sorriso no rosto. A sensação era de estar no
lugar certo, fazendo a coisa certa. A cidade estava pulsando, correndo,
gritando, lutando e eu estava lá.
Quinta-feira, 13 de junho. As notícias chegavam
aos poucos. Colegas de imprensa presos, feridos. Amigos de faculdade e transeuntes
machucados. Policiais que queimaram colchões e quebraram o vidro do carro para colocar a culpa nos manifestantes. E eu já não sabia o que sentir. Um misto de
orgulho, nojo. Felicidade e tristeza. O nó na garganta persistia. Vivi o que os
livros de história me contaram: a luta por um mesmo ideal, o grito de cansaço
de um povo, o despreparo e a repressão de uma policia fascista, que de nada
protege. “Ei, você aí fardado, também é explorado”.
Quinta-feira, 13 de junho. Não saí ferida.
Fisicamente ferida. A não ser pela unha do dedão do pé que está roxa, pisada,
se preparando para cair. E quando cair não vai restar nada. Comparado aos
outros, aos companheiros de batalha, nada. Moralmente é diferente. As marcas
vão ficar para sempre. Ouvi gritos, choros, bombas e tiros. Gritos. Bombas. Mesmo
com medo, me senti mais humana. Mesmo,
sem enxergar e respirar, me senti mais viva. Depois de tanto gás, as lágrimas
secaram, parece. Estão presas. Repasso
em looping todas as cenas. Ainda não
consigo compreender. Meus ombros tensos. “A alma guarda o que a mente tenta
esquecer”, já diria Mano Brown.
Quinta-feira, 13 de junho. Dia de fazer História. Dia de ser História. De mudar a História. Lápis e papel. Máscara e
vinagre. Dia de ir pra rua. “Às ruas!”. De vencer o medo e soltar o grito. De mostrar
que não é por vinte centavos – e mesmo se fosse. Saímos do computador,
levantamos do sofá. Cansamos! E estamos vivos. Uma cidade muda não muda. Não nos
calarão. Amanhã vai ser maior. “Vem, vamos embora que esperar não é saber, quem sabe faz a hora, não espera
acontecer!”.
Foto: Cartaz na Avenida Paulista
Quinta-feira, 13 de junho. São Paulo não parou.
Acordou!
Uma simples frase. Um desejo. Planos. Futuro. Dia primeiro de dezembro de dois mil e onze. Bar, cerveja e pizza. Uma meia promessa. Um meio plano, uma vontade inteira. Está marcado na memoria e deixo registrado por aqui também. Quando tudo der certo, voltarei a ler e vou sorrir.
A vida que ninguém vê, Eliane Brum, 203 pp. Arquipélago Editorial, Porto Alegre, 2006. Preço: R$ 32.
No livro ‘A vida que ninguém vê’, vencedor do prêmio Jabuti, em 2007, como melhor livro de reportagem, Eliane Brum transcende a noção de noticia e sai do lugar comum quando enxerga no cotidiano e no anonimato de pessoas comuns histórias excepcionais. Mistura reportagem com literatura, ao falar sobre o Carregador de Malas que nunca voou; a menina deficiente que pouco
a pouco vence todos os obstáculos ou o homem que comia vidro e só se machucava com a invisibilidade.
Para cada um dos seus personagens, cerca de 20, é dedicado um capitulo que pode ser classificado como crônica, mas que traz também elementos do conto: o mítico, o fantasioso. De forma sutil, a autora envolve o leitor nas particularidades de cada história. Depois disso, como boa jornalista, mostra o desfecho de cada história, matando a sede do leitor de saber o que aconteceu, ou se realmente aconteceu alguma coisa.
O exemplo mais marcante fica por conta do senhor Adail. Negro e de origens simples, seu trabalho sempre foi o de carregar as malas que chegam ao aeroporto de Porto Alegre. Simpático, conta que seu sonho é um dia poder voar. Todos que passam por ele, estavam lá em cima, e ninguém percebe que, apesar de pertencer aquele universo, Adail sempre esteve em solo firme. E, é assim, com os pés na terra, que descreve como seria o dia do sonho realizado.
Bastante emocionante também é a história de Eva. Uma menina deficiente, forte e decidida que, diferente dos outros, aceitava a sua condição e não se importava de ser quem é. Sem se fazer de vítima, dia após dia, supera um obstáculo. De forma que seus problemas físicos acabam por deixar a mostra os defeitos de alma do próximo, mostrando que tudo é relativo. Num mundo onde todos almejam a perfeição, Eva, simplesmente, se permite ser imperfeita. Para desespero de alguns.
A constante do livro é o sugere seu título: a vida que ninguém vê. Os entrevistados, geralmente humildes e oriundos de situações adversas, são socialmente invisíveis, chegando, muitas vezes, à escala de repudio. O quanto isso entristece e machuca fica claro na história do homem que come vidro. Desde pequeno ele sempre mastigou garrafas e azulejos, sem nunca se machucar, mostra sua arte no calçadão, mas ninguém repara. Quando vê a jornalista, quer logo mostrar seus dotes.
Ao mudar o olhar e focalizar um lado que normalmente é tido como comum ou natural, Eliane faz aquilo que chamamos de jornalismo literário, de forma muito bem feita. Talvez não tão estatístico como Talese, por exemplo. Seu texto poético traz humanidade ao leitor, que se coloca ao lado dos personagens, que se envolve e torce para que cada um alcance o seu objetivo.
Indo além, ela ensina como fazer um bom jornalismo - aquele no qual se deve sujar os sapatos e não só ficar à tela do computador-. Pode-se dizer que a autora percorreu três etapas. A primeira foi a escolha dos entrevistados, para isso, contou com a sensibilidade característica dos que trabalham com comunicação. Em seguida, nas entrevistas, extraiu o máximo de seus personagens. A terceira tarefa, talvez a mais fácil, era escolher as palavras corretas para transformar toda aquela bagagem em texto.
Vale lembrar que inicialmente “A vida que ninguém vê” era uma coluna do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, publicada aos sábados, durante os anos 90. Atualmente a autora, Eliane Brum é repórter especial da Revista Época e segue exercitando seu olhar diferenciado, buscando, a cada nova empreitada, entregar-se numa realidade desconhecida ou despreparada, sem pré-julgamentos.
(Resenha escrita para a matéria de Jornalismo Básico II)